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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Toca discos

quinta-feira, 5 de julho de 2012
Em uma pequena cidade, existia um notável parque, um lugar calmo, árvores e natureza cercando-o. Lá havia um lago onde nadavam cisnes, ninhos onde nasciam passarinhos, estradas por onde corriam pessoas e um banco. Neste banco, todo o dia se sentava o mesmo velhinho. Um senhor com cabelos grisalhos, chapéu na cabeça e sorriso simpático nos lábios.
Ninguém sabia seu nome, mas todos paravam ali para ouvir suas historias. Ele era chamado de “Contador de histórias”. Todas as pessoas, no momento em que se sentavam ao lado dele, por alguns minutos, esqueciam dos problemas e viajavam com as fantásticas histórias do senhor. Suas histórias acalmavam corações, renovavam sentimentos, roubavam sorrisos até dos mais sérios e encantavam adultos e crianças. Muitos céticos não acreditavam no poder de cura deste senhor. Porém até as mentes mais fechadas sorriam com as historias contadas pelo velho.
Chuva, sol, verão, inverno, independentemente do clima e do tempo, ele estava lá. Como se já fosse parte do parque. Um parque, um banco, um senhor com sorriso simpático nos lábios. Esta era a descrição perfeita do lugar. Certa vez, o senhor estava contando uma de suas histórias. Mais ou menos cinco pessoas estavam reunidas ao seu redor ouvindo a narrativa. A historia acabou, as pessoas foram seguindo seus rumos e um jovem ficou. Não bastasse ter ficado, sentou e analisou o senhor. O sorriso, o olhar distante de quem tinha muito a que ensinar. Ficaram assim alguns minutos, apenas olhando um para o outro. Enfim o garoto criou coragem e perguntou:
- O senhor vem aqui todo o dia, esta sempre contando histórias e sorrindo. Ninguém sabe nem o seu nome, mas mesmo assim você continua ajudando e contando suas histórias. Porque?
- Meu nome é Aldo, e eu faço isso porque gosto. Um sorriso vale mais que dinheiro. Arrancar um sorriso do rosto de uma pessoa é como ver uma metamorfose. Você as vê chegando aqui cabisbaixas e tristes. E quando saem estão com um sorriso no rosto e a cabeça erguida. É como uma lagarta se transformando em uma borboleta.
- O senhor faz isso pelo simples prazer de ver sorrisos?
- Sou aposentado, vivi muito e conheço muitas histórias. Não acho certo guarda-las apenas pra mim. Por isso as compartilho com quem estiver disposto a ouvir.
- O senhor ajuda as pessoas e não quer nada em troca?
- Já tive tudo que poderia querer na vida. Na idade em que me encontro minhas opções não são muitas. Posso ficar em casa, sentado em um sofá assistindo televisão e ouvindo rádio, como um inútil. Ou posso vir aqui, ver a natureza, refletir e compartilhar historias com pessoas que tem muito mais para viver. Posso ensinar algo para que elas usem em suas vidas.
- O senhor usa uma aliança, sua esposa não se incomoda de ficar sempre sozinha?
- A solidão tem seus dois lados, não é apenas um castigo meu jovem. Ela te da tempo pra pensar e ver o que você fez de errado. Algumas coisas você pode consertar, outras, não. Ao contrário da solidão, o tempo é implacável. Ele leva tudo que você tem, e não devolve mais. Se minha esposa ainda estivesse viva, eu faria muitas coisas diferentes. Quem me proporcionou perceber estes erros foi á solidão. Não espere até que seja muito tarde e a solidão seja sua rotina. Quando precisar, passe um dia sozinho e isso lhe fará bem. Porém, não passe uma vida inteira sozinho.
- Muitas das histórias que o senhor conta falam dos medos, das pessoas. O senhor então tem medo da solidão?
- Na vida tenho apenas um medo, e este medo não é a solidão. Tenho medo de acabar a vida e ter sido como um toca discos.
- Um toca discos?
- Sim, um toca discos. Pois ele passa toda sua vida reproduzindo e nunca produzindo. Este é meu medo, por isso eu conto historias. É meu único legado. A única coisa pela qual as pessoas se lembrarão de mim. Então quando eu me for, as pessoas passarão aqui e lembrarão das histórias que criei, para tentar fazer com que contornassem seus problemas e vivessem a vida de modo melhor. Não se esqueça garoto, o meu maior medo é ter uma mente tranqüila. Uma mente que não produz e só reproduz, isso não faz sentido. Afinal minha mente não seria nada, apenas mais uma “mente da massa”.

Alguns dias depois, o senhor faleceu. Semanas depois de sua morte, em sua lápide estava escrita a seguinte frase: “Um eterno pensador, nunca um toca discos”.




Juliano Furlanetto

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